A mulher boleira

Você já viu essa cena. Elas se pavoneiam em vermelho e negro, ou vermelho e branco, ou ainda vermelho, negro e branco. Se o clichê máximo do futebol é ser restrito aos homens, a mulher toda paramentada que acompanha o sujeito torcedor também é uma figura clássica. Elas estão por aí, num barzinho próximo aos Aflitos, ou num espetinho de esquina, ora toda animadinha com os lances, ora soltando muxoxos. Todas empertigadas com suas camisas do time adaptadas tal qual abadá, toques de celulares, fivelinhas de cabelo, ainda que não saibam nem o nome de um jogador.

Por Rafaella Soares // terça-feira, 23 de junho de 2009

Você já viu essa cena. Elas se pavoneiam em vermelho e negro, ou vermelho e branco, ou ainda vermelho, negro e branco. Se o clichê máximo do futebol é ser restrito aos homens, a mulher toda paramentada que acompanha o sujeito torcedor também é uma figura clássica.

Elas estão por aí, num barzinho próximo aos Aflitos, ou num espetinho de esquina, ora toda animadinha com os lances, ora soltando muxoxos. Todas empertigadas com suas camisas do time adaptadas tal qual abadá, toques de celulares, fivelinhas de cabelo, ainda que não saibam nem o nome de um jogador. Mas mozão é tricolor doente!

E assim, por osmose, ela ganha ares de uma iniciada nos campos. Não que vá se tornar alguma autoridade no assunto; com sorte decora placares recentes e gols históricos.

Essa categoria de anti-maria-chuteiras ganha adeptas a olhos vistos, vislumbrando ser a partner perfeita ou o orgulho de painho. Tiram ondinha no banco do carona, gritando com os punhos em “xis”, mas regurgitam a cerveja ao se depararem com a situação deplorável dos banheiros dos estádios. Afinal, ser Soninha dá um trabalho…

Vão chegando de mansinho, estrategicamente posicionadas no ombro do namorado, noivo, marido, enfim, de mozão, ou ainda pirralhas, vigiando o pai de perto em algum pega-bêbado, muito a contragosto. A cara emburrada só dura enquanto ela não percebe que: – Êba! O mundo do futebol pode sim revelar seus predicados. E isso ocorre através da admiração masculina. Com sorte, uma esnobada em rodinha feminina.

A partir daí, não mais fazer cara de que tá odiando aqueles gritos de brutamontes. Não mais fazer a linha Magda: – Qual a diferença de escanteio e tiro de meta? Não mais disputar seu bofe com os amigos no fim de semana!

Essa parcela feminina sedenta de admiração e reconhecimento descobriu muito auspiciosamente que adentrar no mundo futebolístico lhe daria um plus. Uma aura de ousadia, modernidade. Ser considerada durona! E aniquilaria – doce ilusão – a diferença entre os sexos.

Uma coisa assim, como dirigir uma pick-up ou fumar charuto em festinhas. As fêmeas que adotam essa atitude entrosadinha no futebol sabem exatamente como se portar, raramente interrompendo mozão ou se metendo na sua relação com o radinho de pilha.
Sorrateiras, descobrem todo o possível para estar à altura do ritual sagrado que é um clássico das multidões. Leem até o editorial de esportes, veja só. Mas ao contrário do que pode parecer, não existe mérito quando esse tipo sai por aí bradando hinos. É só surgir o próximo mozão e elas viram a casaca.

* Ilustração de Alexandre Dantas, especial para a Revista Žena



1 comentário em “A mulher boleira”

  1. Ana Claudia sexta-feira, 17 de julho de 2009 // 20:24

    Eh
    Existe muito disso por ai.
    Como não me encaixo digo só, vc tem toda a razão.

    Parabéns pelo post

    E mudar a casaca por causa de Mozão? NUNCAAAAAAAAAA

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