Androinventado

O fundo desacreditava que olhos desconhecidos se encontravam e uma luz interior acendia, assim, subitamente. Que podia existir chama sem combustível. Para mim, o amor deveria ser plantado, conhecido, conquistado. Vinha com o tempo. Ou caía do céu. Como podemos amar o desconhecido? Einstein dizia que a emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério.

Por Belisa Parente // sexta-feira, 2 de julho de 2010


Ilustração de Alexandre Dantas

No fundo desacreditava que olhos desconhecidos se encontravam e uma luz interior acendia, assim, subitamente. Que podia existir chama sem combustível. Para mim, o amor deveria ser plantado, conhecido, conquistado. Vinha com o tempo. Ou caía do céu. Como podemos amar o desconhecido? Einstein dizia que a emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério.

Parecia que eu estava em Berlim. Vi uma pele alva descendo do “cavalinho de pau” com uma elegância peculiar. Me olhou rapidamente e subiu as escadas correndo. Observei seus passos espaçados com um sorriso no rosto, nunca tinha visto aqueles olhos ativos antes. Tive vontade de deixar um bilhetinho no bagageiro, não é todo dia que alguém me arrebata assim de cara, fiquei sem saber o que dizer. Talvez um simples “você tem luz” em letras desenhadas, àquelas dos convites de casamento, para combinar com a bicicleta branca estilo antigo.

Entramos na mesma sala lotada para assistir uma estreia de Almodóvar, mas não conseguia me concentrar. O ser cheio de luz, quase uma estrela, ainda reverberava dentro de mim. Afinal, de onde surgiu? De que mundo é? Eu não sabia nada. Depois do filme, parou ao meu lado e pediu uma bebida. Ouvi sua voz e conclui, ainda em dúvida, não serve para mim.

Sempre gostei de homens sensíveis, doces, sem pinta de machão quarto de milha, mas o mundo é contraditório. Lembro uma afirmação machista do meu irmão: “Tu só namora com viado” – a crueldade é inerente ao ser humano, falo por mim e por vocês.  E nesses meus 24 anos, a ironia do número se fez ainda mais presente. Só que desta vez, eu fui atraída e não atraí. Fiquei sabendo que tínhamos um amigo em comum e fui logo abrindo o jogo, com todo despacho: – Foi amor à primeira vista! Para minha decepção, o colega afirmou que o mesmo tinha namoradO. Foi um banho de água fria, mas não me abalei.  Eu não teria nenhuma chance, nem poderia competir, tudo bem…

Só em vê-lo ficava alegre, alegre, alegre, o sorriso saltava, os olhos brilhavam – um verdadeiro colírio. Só importa o que nos faz felizes, pensava. Não desejava saber mais nada a seu respeito, sua imagem e a minha imaginação me bastava. Não queria conhecê-lo, saber seu passado, nem trocar qualquer palavra que fosse. Não podia tê-lo, queria, mas não podia tê-lo. Resolvi contemplá-lo levemente com toda calma. Também gostava da personalidade que havia criado para ele, tinha medo de um novo banho de água fria, detesto água fria.

Aos poucos o encanto tornou-se mais sensual, sexual, menos poético, onírico. Aos poucos, vê-lo, apenas, não me satisfazia, o sorriso largo já não vinha. O desejo de provar o seu sabor crescia, mas eu continuava com “o cara é gay” na minha cabeça. Até que um dia, suplantei a sensação maravilhosa do mistério que ele me proporcionava. Queria experimentar esse caminho inusitado, gosto de aventuras e não repetiria um erro do passado.

Nem sempre os começos e os finais das histórias são felizes, mas como em um conto de fadas, tudo pode acontecer… na adolescência me encantei por um anjo louro moderno, diferente dos demais garotos da cidade, mas, na época, não tive coragem de lhe falar, a pressão social contribuiu, muitos recriminavam, gozavam: “Ele dorme na caixa”. Anos depois o reencontrei, continuava lindo, mas sem a carinha de anjo, a imagem performática dos clipes na MTV prevalecia, era real, ele havia mudado. Não sei, os garotos estão muito indecisos, e às vezes é bom que seja assim; devemos experimentar, colocar em xeque. Também existe uma concepção colonial imperando, homens sensíveis são gays, mas não é sempre assim. Nesse nosso reencontro, uma noite sem fim em um bar chamado Rosto, no meio de serras, entre nascentes, contei sobre o amor adolescente. Ele me olhou surpreso e disse: “Porque você não me falou isso na época?!”. Foi uma noite memorável…

A felicidade não quer saber do tempo, de respostas, sem medo ou pudor, sem passado, resolvi expor. O meu amor androinventado, do desbunde, sem padrão. Um amor diferente, liberto, agradecido, simplesmente por ter existido e me despertar, sem saber.



2 comentários em “Androinventado”

  1. Gorete domingo, 4 de julho de 2010 // 09:27

    Bela, gostei muito da crõnica, a gente se deleita com leitura. Porque vc escreve com a sua alma. Parabéns!

  2. Gabriel segunda-feira, 5 de julho de 2010 // 08:27

    gostei
    é uma cronica bem zena
    que revela a alma feminina
    e ao mesmo tempo polemiza o sensivel
    ja que o insensivel tb é tanto masculino como feminino
    bom saudade de tu
    mta coisa p te falar
    bjo

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