As boas mulheres boas

Woman on Stairs (Foto: Iren Stehli). Imagem retirada do livro ‘Iren Stehli’ (Editora Torst, 2006) escrito por Anna Farova e Martin Heller.
Eu deveria ter ido dormir mais cedo, afinal. Estava morta de sono, mas já era o último capítulo do livro que estou protelando há um mês. Enrolo pra cá, lá, e, só agora, quando ele toma corpo, consegui me animar, dar boas risadas e boas fungadas. Mas era tarde da noite, não conseguirira aguentar tanto tempo sem criar boas olheiras. Consegui sentir, finalmente, o que ele queria me dizer. Morno, morno, ele era. Mas despertou no meu sonho uma certa continuidade de fatos (ficcionais!). Na história que eu lia, Gemma amava Anton, que a trocou por sua melhor amiga, Lily. As duas são escritoras e amam Anton. Do outro lado, Gemma é uma filha enlouquecida. Seu pai abandonara a mãe, e, depois de um ano – um ano inteiro com outra mulher – volta para casa. O ambiente é irlandês. E no final das contas, Anton volta para Gemma, mas é mentira. Ele fica com Lily, depois de outra separação. Ou seja, no livro, tudo volta ao normal. E pronto!
Eu procuro ler para pensar nas coisas, entender e conhecer outros mundos. Mas esse livro me fez ficar com raiva. Não dele, mas das personagens – mulheres, fêmeas, minhas congêneres -. Por que somos tão benevolentes, bobas, tolas e sucetíveis a sermos as donas do perdão?
Como assim, uma mulher é capaz de ser abandonada, por um ano, por uma secretária do marido (a autora com certeza sabe que essa é a história mais velha do mundo) e acreditar piamente que tudo foi uma crise de meia-idade? Alguém me socorre?
Por que somos assim? Digo, somos. Me incluo porque não sei do que sou capaz. Estou falando da personagem, mas, o que eu ou você faria no lugar dela? Na prática, é simples: imperdoável. Provavelmente ela estava hiper louca para aceitá-lo novamente. (E eu não estaria?) Mas ele merecia? Depois de manter um caso de UM ano inteirinho? Quem de nós diz que faz e não faz? Ou não faz e faz?
Vivemos nos atropelando em nossas palavras. Lembro de cena de filme de sessão da tarde, em algum pub londrino, onde o homem pergunta exatamente o que as mulheres querem. Assim, na lata, quebrando acordo silencioso entre as mulheres, a mocinha bêbada responde: – nós não fazemos a menor ideia. E quem faz?
Somos assim, incompreensíveis por nós mesmas. Ilegíveis para muitos, astutas para outros tantos. Mas somo nós. Assumimos que sabemos ser ileais, que amizades duradouras nos fortalecem e que, uma vez por mês somos capazes de matar alguém. Ou que – desculpaê – surtamos vez por outra, sem nem ter ideia do porquê.
Confesso que tenho sérios confrontos comigo mesma. E odeio, às vezes, o fato de as mulheres serem tão boas. AS BOAS mulheres são boas. São doces, são, por vezes, mães dos próprios maridos. É tanta paciência, que penso que serei incapaz de manter um relacionamento de dez anos. Não há orgulho, chatice, tocerdor de futebol… Elas compreendem e aceitam tudo. Ou fingem que sim, pra ficar tudo bem.
Mas até onde vai nossa esperteza? Será que somos burras porque aceitamos um homem de volta? Será que somos bobas por abrir mão do status profissional para sermos profissionais de casa, uma mãe dedicada?
Onde há mais perguntas é onde se encontram as respostas.
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Boas mulheres são sempre bem cruéis, porém somente com si mesma. Todas tem um pouco delas, Ribas. Assim como as da China, relatadas por Xinran.
Por quê as mulheres são… tão mais interessantes aos homens do que os homens são às mulheres?
Porque as mulheres serviram todos estes séculos como espelhos possuindo o poder de refletir a figura do homem duas vezes maior que seu tamanho natural.
Parecemos burras, bobas… mas os homens conseguem ser duas vezes mais, porque ele precisam da gente, e nós não. Nos bastamos, com todo nosso conjunto de defeitos, somos perfeitas.
Beijos da mais nova leitora da Zena.
ótima revista e ótima coluna, Camila.
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